segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Carnaval

Não me leve a mal,
Mas não venha estragar meu carnaval.
O que “cê” tá fazendo aqui?
Eu cheguei primeiro, esse é meu bloco e já faz tempo que eu desfilo.
Te chamei pra sair na rua comigo mas o meu convite você não aceitou.
Soube que foi por causa de outra moça, q’ em outro bloco “cê” se engraçou.
E vem parar na minha frente, se fazendo de indiferente, fingindo que não me reparou.
Do alto da sua arrogância, vai dizer que de longe não me olhou?
Há tantos blocos e tantas gentes... milhares de pessoas na minha frente
E você escolhe justo o meu lugar para sua figura desfilar
Amigo, porque eu finjo que não quero mais que isso-
Não me leve a mal,

Mas não venha estragar meu carnaval.


Baile de Carnaval, c. 1930

Bigio Gerardenghi (Itália, 1876 -Brasil, 1957)
óleo sobre tela, 54 x 75 cm

Difícil é entender a Cruz.

Sou criatura fraca. Humana. Das que cometem mais deslizes que acertos. Das minhas tentativas, 99% é erro e apenas 1% acerto. Fruto de uma sociedade que se diz cristã, mas na verdade, não sabe de nada, não aprendeu nada. Nunca olhou de fato para aquilo que Jesus deixou de lição.

O meu Mestre e Salvador foi exemplo de tudo o que devíamos ser: amou o não amado, foi obediente, buscava suas respostas sempre em oração, teve amigos, não fez distinção entre os imperfeitos. E ainda assim, foi humilhado, cuspiram em sua cara, chicotearam seu corpo, rasgaram e sortearam as suas vestes. Foi submetido ao julgamento popular. Que nem esse que acontece nas redes sociais. Colocaram nele, o mais cruel dos deboches, uma coroa de espinhos em sua cabeça. Fizeram-no andar por toda a rua, ensanguentado, ferido no corpo e na alma, com uma cruz de madeira enorme. Logo ele que era carpinteiro. Tantas formas de matá-lo e escolheram logo a madeira, seu instrumento de trabalho, para causar mais aflição, matando aos poucos, de angústia e de dor.

Mas esse mundo que se diz cristão não quer carregar suas cruzes e foge das dores. Busca prazeres imediatos, incessantes. Não tolera diferenças, não tolera o fracasso. Precisamos ser sempre jovens, extraordinários, ricos e sorridentes. Precisamos saber tudo, não podemos perder nada. Cruz que nada, Cristo já morreu. Não compreenderam a real mensagem: a Cruz é inevitável. Não é preciso ser cristão para entender a mensagem, para saber que não importa, a cruz virá.

Volto a pensar nos desgostos que vivi até hoje. Sinto um gosto estranho, dizem que é amargo, mas em nada se parece com os cafés e chás que ando bebendo. Algumas das minhas cruzes tem suas razões de ser. Não posso colher flores se deixei que o mato tomasse conta do meu jardim. Outras, eu ainda não compreendo.


Mas eu sou aquela criatura de apenas 1% de acertos. O que posso esperar para mim, se mesmo meu maior exemplo de vida, sendo perfeito, foi humilhado. Apenas aceitar que uma vida sem dores é algo irreal.